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“Causos” e contos do mar - Glória, declínio e morte do navio Carl Hoepcke

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“Causos” e contos do mar - Glória, declínio e morte do navio Carl Hoepcke

Manutenção de Equipamentos 20/06/2012
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Para começar com o “pé direito” essa nova editoria do site, escolhemos uma história que chegou até o Bombarco através de um e-mail enviado pelo pessoal da Acatmar. Na mensagem continha um texto sobre o navio Carl Hoepcke, de autoria de Walter Pacheco Jr, onde narrava com riqueza de detalhes a história de um navio que chegou ao Brasil no ano de 1927 e ficou conhecido no sul do país pelo seu glamour. Após anos de muitas viagens cruzando o litoral brasileiro, a embarcação encerrou a sua trajetória encalhada em Santos, litoral de São Paulo.

Abaixo seguem trechos do relato de Walter Pacheco sobre o Carl Hoepcke, um verdadeiro “causo” do mar:

Construído em Hamburgo, na Alemanha, em 1926, o transatlântico Carl Hoepcke contava com 62,40 metros de comprimento e 10,96 metros de largura e calado máximo de 12 pés (3,66 metros). O navio chegou a Florianópolis, vindo da Alemanha, numa manhã de domingo, após 27 dias de viagem e carregado com 898 toneladas de carvão, em julho de 1927, para integrar a frota da ENNH.

As máquinas com potência de 12 mil HP moviam duas hélices para uma marcha de 12 milhas por hora. O Carl Hoepcke também contava com equipamentos de radiotelegrafia, frigorífico com máquina para produzir gelo e aparelhos contra incêndio e para desinfecção.

A Empresa Nacional de Navegação Hoepcke tinha o Porto de Florianópolis como sua base principal e possuía neste, localizado na Praia de Rita Maria, seu cais de navios, seus trapiches, armazéns e um estaleiro - o Arataca. A empresa possuía quatro navios e muitas outras embarcações, mas o Carl Hoepcke era seu grande orgulho.

O transatlântico era um navio moderno, sofisticado e luxuoso para a época. Acomodava 50 passageiros na primeira e 60 na segunda classe, e ainda contava com dois camarotes de luxo. A embarcação possuía dois salões: Refeitório com mesas redondas e cadeiras giratórias e “Fumadoiro” com divãs e poltronas de couro. No refeitório um piano que ficava ao canto, tocado pelo 1º telegrafista e pianista Cristaldo Araújo, animava as noites a bordo. Pratarias e louças finas davam requinte ao ambiente.

O navio Carl Hoepcke propiciou entre os anos de 1927 a 1960 a forma mais elegante de viajar e a “união” mais luxuosa entre Florianópolis e o resto do Brasil.

O “Carl Hoepcke” fazia a alegria da cidade quando atracava no cais Rita Maria. Era recebido até com bandas de música.

Acidente com o “Carl Hoepcke”

Um acidente colocaria um ponto final nos tempos de glória da embarcação e daria início ao seu declínio.

Depois de transportar passageiros em viagens de luxo por quase trinta anos, o transatlântico Carl Hoepcke, no início da tarde de 27 de Setembro de 1956, vivenciou uma grande tragédia: Um incêndio irrompeu na casa de máquinas e dominou o navio.

A embarcação que tinha saído pela manhã do porto de Santos e estava a aproximadamente 15 milhas do local. Os 130 passageiros que estavam a bordo, em pânico, se jogavam ao mar. Vários ficaram feridos e um morreu afogado. Um outro passageiro, que não sabia nadar, ficou 27 horas na água agarrado a um pedaço de madeira. O fogo só foi debelado no dia seguinte.

O navio sinistrado foi salvo por uma arriscada, perigosa, e bem operada manobra efetuada pelos seus tripulantes. Segundo Wellington Martins, ex-marítimo da Companhia Hoepcke "Para apagar o fogo foi preciso afundar o navio e depois trazê-lo de volta, numa operação delicada e perigosa, mas que deu resultado”.

Reformado no Estaleiro Arataca, o Carl sofreu a transformação de navio de passageiro para navio cargueiro, perdendo assim o glamour que encantava a população de Florianópolis.

Em 1964, a Empresa Nacional de Navegação Hoepcke foi desativada na ocasião e seu porto, o de Rita Maria, foi fechado definitivamente. O Carl Hoepcke, que mudou de nome e função ao ser transformado em cargueiro após o incêndio, foi vendido para um armador do norte do país. Foi visto maltratado, com muita ferrugem e rebatizado Paissandu, ou segundo outras fontes de Pacaembu, num porto do norte do país.

Tempos depois, o antigo cargueiro catarinense foi revendido a empresários de São Paulo que o rebocaram até Santos, já que ele não possuía motores.

O navio foi reformado e convertido em um restaurante e boate flutuante de nome Recreio.

Ancorado na Praia do Góes, com movimentação feita por rebocadores, tinha permissão para fundear a entrada da Barra. O Carl Hoepcke, agora Recreio, alegrou os santistas por muito tempo.
Porém, o mar revolto e os fortes ventos causados por um temporal arrebentaram as amarras que ligavam a embarcação ao cais e fizeram o Recreio atravessar, como um navio fantasma, a boca do canal 6, vindo dar nas areias da Ponta da Praia de Santos. Assim, na madrugada de 26 de fevereiro de 1971, o navio Carl Hoepcke, transmutado Recreio, encalha a 100 metros da avenida Bartolomeu Gusmão e vira manchete de jornal.

Uma estranha e inexplicável demora na indecisão do que fazer com o barco encalhado fez com que ele ficasse naquela situação durante mais de 30 anos e o transformaram em um “navio fantasma”.

Uma solução lógica seria tirar o navio encalhado com rebocadores. Isso até foi tentado, mas quem disse que ele saía! Optou-se, então, pelo desmonte “na base” do maçarico e estão nesta até hoje.

O navio teve suas estruturas desmontadas e removidas do local sobrando parte do casco e outras peças enterradas na areia, que a dinâmica do ambiente marinho, em 1999, tratou de trazer a superfície.

A situação ficou um tempo esquecido pelos prefeitos e pela Marinha. O entulho enferrujado da velha embarcação, de quando em quando, aflorando das areias. Em 14 de janeiro de 2006, a Prefeitura de Santos começou a retirada dos destroços do navio encalhado na Ponta da Praia. Os trabalhos estão a cargo da Secretaria do Meio Ambiente, Defesa Civil e Terracom Engenharia Ltda. A remoção das ferragens acabou virando atração para turistas e moradores que passam pela região.

A retirada de toda a embarcação é difícil de ser feita, já que o casco está muito enterrado. Segundo a Prefeitura de Santos os destroços, enterrados em grande profundidade, devem permanecer diante das dificuldades para sua remoção.

Em menos de 40 anos, o navio de luxo, que tanto encantou os florianopolitanos, se transformou em sucata.

Gostou da história? Tem um “causo” ou um conto relacionado a vida no mar para contar também? Então mande para gente! Ela pode ser a próxima a ser publicada na seção de “Causos” e contos do mar.


Foto: DIvulgação