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Susto em Ilhabela

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Susto em Ilhabela

Manutenção de Equipamentos 24/09/2009
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24/9/2009
Susto em Ilhabela

"Janeiro de 2007, um dia clássico de verão em Ilhabela (SP): calor, céu azul, uma lestada convidativa ao velejo. Nada melhor do que um churrasco a bordo para ‘celebrar’ tudo isso.

Zarpamos em direção ao norte da ilha, e chegamos na Praia do Poço até antes do previsto. Enquanto minhas amigas foram dar um mergulho e conhecer uma cachoeira ao lado da praia, fiquei no barco para preparar o churrasco.

Tudo estava calmo, quando resolvi ir até a cabine. Pela rádio escutei a previsão do tempo. Dizia que se aproximava da ilha uma frente fria, com ventos fortes, chuva e mar agitado. Não liguei, e imaginei que, como sempre acontece, a frente passaria atrás da ilha ou então chegaria à noite.

Continuamos o churrasco, dei uns mergulhos e fui até a cachoeira. Mas ao sentar na areia, percebi o mar, fora da baía do Poço, mais ‘encarneirado’ (cheio de espumas formadas pelas cristas das ondas) do que antes.

A surpresa

Decidimos ir embora. Já era 16h, e o caminho até o Saco da Capela era longo. Por volta das 16h30, escutei uns barulhos, eram trovões. O engraçado é que o céu estava claro, quase sem nenhuma nuvem.

Saí velejando e ‘motorando’ em direção à Ponta das Canas, mas o mar começou a ficar mais agitado. Quando me aproximei da Praia da Fome, os ventos aumentaram. Rizei a mestra, e, sobre Ilhabela, vi uma enorme nuvem negra. Dava para ver os raios que corriam pela nuvem e os barulhos dos trovões que já eram bem fortes.

Em pouco tempo, a frente fria nos “engoliu”. Ao virar o farol da Ponta das Canas, a correnteza estava contra e o barco já demorava mais para ganhar altura.

Por volta das 19h, ainda passávamos pela Praia da Armação, e o vento sul só aumentou, junto com a chuva. Coloquei a roupa de tempestade, baixei todas as velas e ‘motorei’ guiado pelas luzes das ruas de Ilhabela. Soube depois que os ventos passaram dos 100 km/h na rajada.

O mar revolto e a correnteza contra, me obrigaram a chegar mais próximo de Ilhabela. Para evitá-la, dei uma boa margem de distância entre as luzes e o barco, porque já não enxergava mais nada. Foi aí que caiu um raio muito forte na ilha, e todas as luzes da ilha apagaram.

A idéia

Quando passava pela Praia do Areado, lembrei que tinha visto várias poitas do Iate Clube de Santos. Foi aí que resolvi navegar para lá. Pegaria uma poita, e quando tudo se acalmasse, voltaria a navegar para o Saco da Capela.

Só que o barco pulava muito, até dentro da pequena baía do clube. O vento forte também dificultava a ‘caçada’ da bóia. Peguei uma, tirei o motor e corri para a proa para amarrar. Com todo esse chacoalho, o cabo enroscou entre o leme e o casco e não vinha para a proa de jeito algum. Depois de uns cinco minutos, já sem forças, larguei o cabo, mas o barco não se soltou. Ficou preso pelo leme, de popa para o mar bravo. Fui obrigado a pular na água, e agarrado firmemente na escada, subi no cabo cheio de cracas e forçava para baixo. Deu certo, e quando soltou, saiu a favor da correnteza.

Minha poita

No meio de toda aquela confusão e escuridão, passei raspando nas pedras da Praia do Viana, e decidi me lançar mais ao meio do canal. Iria assim até o Saco da Capela. As luzes que via na ilha eram apenas as dos carros. De dez em dez minutos, ligava o holofote e tentava descobrir onde estava. Logo vi o píer da vila e me aproximei do Saco da Capela.

Como havia muitos barcos, decidi pegar qualquer poita. Mas para não errar como no Iate Clube de Santos, chamei uma amiga que era mais corajosa e pedi para que deitasse na proa do barco com o croque na mão. Iria aproar o barco nas bóias e o que pegasse já estava de bom tamanho.

Tentamos, e na quarta tentativa, ela pegou uma. Rapidamente tirei o motor e fui para a proa. Joguei-me no convés, e com a força que me restava, abracei e puxei a bóia e os cabos a bordo.

Para minha surpresa, quando vi a bóia, lá estava o nome do meu barco. Era minha poita que minha amiga não tinha pegado. Pelo menos era algo bom no meio dessa aventura.
Depois de uma hora, os ventos diminuíram. Já era 21h, quando fechei o barco e chamei o caiqueiro. Para minha surpresa, quando desembarcava, pude ver na churrasqueira as últimas lingüiças que tinham ficado lá quando a tempestade começou. A churrasqueira é muito boa mesmo!

Aprendi que...

Quando há um aviso de tempestade não me arrisco mais. Nesse mesmo ano tinha me inscrito na Regata da Ilha de Caras. Estava tudo pago, mas não fui devido ao aviso de tempestade extratropical.
Uns amigos mais aventureiros foram e quebraram o barco. Outro ficou preso na Ilha das Couves, em Ubatuba (SP), porque não dava para passar a Joatinga e nem voltar para a ilha. Eu e meu barco estávamos seguros e abrigados, cada um na sua poita".

 

Alexandre Ventura

35, mora em Campinas (SP). Veleja desde os 15 anos, e é dono do Laffitte, um Sirius 27, o seu terceiro veleiro. Atualmente, prepara-se para mudar para Ilhabela (SP), onde irá abrir uma pousada na Praia da Feiticeira.

Veleja sempre para Angra, Ilha Grande e Ilha das Couves, mas sua pior passagem foi essa no “quintal de sua casa”, vivida em janeiro de 2007.

Thassia Ohphata
Fotos: Arquivo pessoal