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Torben Grael – o rei da vela no Brasil fala com exclusividade para o Bombarco

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Torben Grael – o rei da vela no Brasil fala com exclusividade para o Bombarco

Manutenção de Equipamentos 12/04/2012
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Nem futebol, nem vôlei. A modalidade olímpica que mais trouxe medalhas para o Brasil foi a vela. E é quase impossível falar em vela no Brasil sem falar em Torben Grael.

Nascido em São Paulo, mas criado em Niterói, no Rio de Janeiro, Torben pertence a uma família diretamente ligada ao esporte: seu avô Preben Schmidt foi um dos pioneiros da modalidade no Brasil, enquanto seus tios maternos, Axel e Erik Schmidt, foram os primeiros tri-campeões mundiais na classe Snipe. Seguindo os “bons ventos” da família, Torben junto com o seu irmão Lars Grael conquistaram em 1983 o seu primeiro campeonato mundial na classe Snipe, na cidade do Porto, em Portugal.

Desde então, o velejador já tem em seu currículo cinco medalhas olímpicas (Ouro em Atenas/2004 e em Atlanta/1996; bronze em Sydney/2000 e Seoul/1988 - todas na classe Star - e uma prata em Los Angeles/1984 na Soling), seis campeonatos mundiais (conquistados em diferentes classes) e o título da edição de 2008/2009 da Volvo Ocean Race como capitão do veleiro “Ericson 4”, além do terceiro lugar na edição de 2005/2006 a bordo do “Brasil 1”.

A extensa lista de vitória, que preencheriam tranquilamente uma página, fazem de Torben o atleta brasileiro e o velejador com maior número de medalhas olímpicas no Brasil. Para ele, “em qualquer modalidade olímpica, o auge são as Olimpíadas. Às vezes o mundial do esporte pode ser até mais difícil de conquistar, mas não tem o mesmo brilho. Só de ir para os Jogos você já faz parte de uma elite. E conseguir um bom resultado em uma Olimpíada é algo imensurável”, conta. Sobre como é participar deste grande evento esportivo, o campeão é enfático “Não tem Olimpíada fácil, todas foram difíceis”. Mesmo assim, o campeão conseguiu selecionar uma de suas conquistas como uma das mais especiaisA segunda medalha de ouro, conquistada em Atenas em 2004 foi especial por eu ter conseguido igualar Ademar Ferreira [primeiro atleta brasileiro a se tornar bicampeão olímpico no salto triplo] no número de conquistas olímpicas e também por ser em Atenas, o que tem um valor significativo”, conta.

A chance de conquistar uma sexta medalha em Londres foi descartada no ano passado quando Torben anunciou que não tentaria uma nova campanha olímpica. Agora o campeão tem se dedicado à classe Soto 40, na qual conta o apoio da Mitsubishi Motors, além é claro de continuar “brincando” na Star, agora sem compromissos como competidor. Segundo Torben, a vela no Brasil tem uma boa repercussão no país, mas poderia conseguir resultados melhores. “É muito difícil para quem está começando conseguir uma estrutura para fazer uma campanha olímpica. Por isso muitos acabam desistindo”, comenta.

Talvez seja pensando nisso que o velejador, junto com o seu irmão Lars Grael e seu companheiro Marcelo Ferreira entre outros praticantes da modalidade, resolveram criar um projeto que permitisse o acesso de crianças de baixa-renda aos esportes náuticos – O projeto Grael. “O projeto começou como uma escola de vela. Com o tempo foi evoluindo e hoje em dia não ensina só a velejar, como também ensina sobre cidadania, meio ambiente e inicia os alunos em profissões relacionadas ao meio náutico. É uma oportunidade para os jovens de seguir uma carreira no esporte”, explica Torben.

Mais de 10.000 alunos da rede pública de ensino já participaram do projeto em 14 anos de operação. “Não acompanho os trabalhos todos os dias, mas tento apoiar no que é possível. Alguns alunos já chegaram a competir comigo, outros com o meu irmão Lars. Já temos casos de alunos nossos ingressando no ramo náutico e participando de grandes competições nacionais e internacionais”, conta o velejador.

E se o assunto é grandes competições de vela, não podemos deixar de falar na Volvo Ocean Race, que está em destaque por aqui por conta da parada que a competição faz no Brasil até o próximo dia 22 de abril. “Não é fácil falar em poucas palavras sobre a Volvo Ocean Race. Provavelmente é a mais difícil das regatas oceânicas já realizadas. A preparação é uma parte muito importante da competição. Você tem que desenhar o seu barco, definir a parte mecânica, estudar os dados do percurso e de meteorologia, além de escolher a equipe que geralmente é formada  por um navegador, dois capitães de turno, mais a tripulação e a equipe de terra. Essa parte se parece bastante com uma prova de Fórmula-1”, explica Torben.

Das experiências na competição de volta ao mundo, o capitão destaca alguns momentos que foram marcantesCom o Brasil-1 sofremos duas quebras importantes que quase impossibilitaram a continuação da segunda etapa da prova. Foi necessário um trabalho de logística enorme para não perder a perna. Com o Ericson-4 passamos por dois momentos importantes. O primeiro foi quando desviamos a rota da primeira etapa para Cabo Verde para desembarcar um tripulante que estava machucado. [A etapa partiu de Alicante, na Espanha, com destino à cidade do Cabo, na África. Após deixar o tripulante para ser socorrido, a equipe voltou à competição e estabeleceu um novo recorde mundial de singradura – 596,6 milhas navegadas em 24 horas]. O outro aconteceu na perna entre Singapura e a China quando escolhemos ficar duas horas abrigados na Ilha de Luzon, por conta das condições críticas do tempo que colocavam em risco a tripulação e o veleiro. Dos três barcos que saíram para enfrentar o mal tempo só um chegou”, relembra.

Para aqueles que ainda estão começando na vela, o conselho de Torben é “não desistir, continuar treinando e se preparando e aguardar as oportunidades certas”. Na opinião do campeão, o mais importante “é curtir e ter o prazer de fazer um esporte tão bacana”, encerra.


Juliana Barbosa para Bombarco
Foto: Ericson Racing Team