Vela Oceânica: Travessia do Atlântico termina com festa para Beto Pandiani e Igor Bely
"Foi muito mais difícil psicologicamente do que fisicamente", disse Beto Pandiani aos amigos quando a embarcação tocou nas areias da Praia da Armação. A recepção aos velejadores contou com a presença de mais de 500 pessoas no local, sem contar as 20 embarcações que escoltaram o Picolé, como foi batizado o barco, desde a Ponta das Canas até a praia.
O trajeto entre os continentes foi marcado pela falta de vento, o que mudou o cronograma da viagem inicialmente previsto para um mês. Desde o início do projeto, em 2011, a dupla alinhou todos os detalhes do barco para encontrar ondas fortes e não quebrar. Numa conta simples, em 70% do caminho a velocidade dos ventos não ajudou a impulsionar a proa do Picolé para a costa brasileira. A ansiedade da chegada, principalmente na última semana, foi, segundo os velejadores, a maior dificuldade da Travessia do Atlântico.
Conectados
As redes sociais também foram uma ferramenta importante para o sucesso do projeto, que usou o crownfundind, uma espécie de vaquinha virtual, para captar parte do dinheiro necessário. Cerca de 700 pessoas se uniram e colaboraram com R$ 166.568,24, acima da meta estabelecida de R$ 150 mil. O valor foi usado para cobrir despesas com equipamentos, que incluíram GPS, telefones via satélite, dessalinizadores de água, alimentos liofilizados e outros mais. Mas o dinheiro não foi o que motivou a dupla e sim as mensagens de carinho e apoio pela internet. Uma delas, em francês, ganhou o prêmio de melhor das milhares: "Chegar ao destino é um desejo, mas navegar é um prazer".
"Eu sentia a energia de todos nos momentos mais difíceis da viagem. Era impossível pensar em desistir com esse carinho, apesar de estarmos quase boiando em alto mar. Os nomes de cada um escritos no barco e no pote a bordo foram nosso combustível", disse Beto Pandiani. "Conseguimos criar essa interação e quem compartilhou nossos posts, incentivou, participou da vaquinha e divulgou de alguma maneira foi um embaixador da Travessia do Atlântico,"completou.
Com português perfeito, apesar de ser francês e de escrever seus posts em inglês, Igor Bely insistiu na dificuldade enfrentada. Juntos, os parceiros de outras aventuras como a Travessia do Pacífico já passaram mais de 100 dias e quase 30 mil quilômetros em barco aberto e sem conforto. "A primeira e a última semanas foram as mais difíceis dos 38 dias da Travessia do Atlântico. No começo, quando zarpamos da Cidade do Cabo, o mau tempo e o mar bem agitado deram as caras. Tivemos de ser mais concentrados e focados. Na parte final, o cansaço bateu e a ansiedade de chegar logo para colocar o pé na areia e rever os amigos e família era potencializada pela falta de vento".
Os velejadores tentaram uma parábola no caminho e ficar sempre de proa para o Brasil, mas essa estratégia resultou na passagem por regiões de ventos fortíssimos, principalmente no Cabo da Boa Esperança, água muito fria, tubarões, navios mercantes e ondas gigantes. A rota foi paralela à costa da África do Sul e da Namíbia. A dupla Passou pela Costa dos Esqueletos, que é a porção de terras desérticas do continente. "Em um determinado momento, nos primeiros dias, poupamos o barco por causa do vento forte, ou seja, deixamos sem vela e navegar pelo mastro era suficiente", relatou Pandiani. Depois desse trecho inicial, os aventureiros chegaram ao ponto mais complicado que foi a falta de ventos.
Atrito a bordo?
"A característica do Igor a bordo é fundamental. Sua bagagem de conhecimento náutico adquirido dentro de um barco, nos ajuda a ter esse resultado. Todos os detalhes e soluções dentro de uma embarcação ele consegue fazer com maestria".
Sobre as novidades para 2014, Betão quer apenas esperar: "Difícil pensar nas próximas viagens, só sondagens por enquanto. Quando estamos em uma expedição como a do Atlântico, a única intenção concreta é ter energia para chegar ao destino".
O barco
"É difícil chegar um modelo ideal de catamarã. Podemos dizer que não houve quebras e molhou bem menos comparando com os outros barcos. Ficar seco faz a diferença em tanto tempo de viagem. Outro ato aprovado foi que a proa, não enterra na onda", disse Pandiani. "A cada barulho, batida de onda, a gente ficava atento. Nós sentimos o barco".
Igor Bely deu seu ponto de vista: "Quando pegava mar de lado, nós ficávamos apreensivos. É uma característica de um catamarã. Esse modelo é bom com mar liso e vento favorável. O aprendizado do Pacífico foi fundamental, mas o Picolé é mais forte".
A novidade veio dar à praia
O prefeito Antônio Colucci, o capitão Alexandre Motta de Sousa, da Capitania dos Portos, em São Sebastião, patrocinadores, o anjo da guarda dos velejadores na Cidade do Cabo, Manuel Mendes, e os curiosos mudaram a paisagem da Praia da Armação. Antes de aportar, o barco Picolé foi escoltado por uma flotilha de 20 barcos, lanchas e monotipos, liderados pelo Orson Mapfre, um dos ícones da vela oceânica brasileira, comandado por Carlos Eduardo de Souza e Silva, o "Kalu".
O primeiro discurso misturou saudade e agradecimento. "A vontade que tenho é de abraçar um por um, de olhar nos olhos e agradecer a oportunidade de ter vivido esta emoção tão intensa nestes últimos meses. A viagem deu certo e o Picolé agora tem uma casa: Ilhabela. Quero que este barco sirva de inspiração para as crianças e que passe a ser um barco escola, ensinando aos pequenos os valores que se precisa para ir ao mar. Preciso devolver tudo que recebi, e esta é uma das maneiras que vejo," disse Beto Pandiani.
Redação Bombarco
Fonte: ZDL
Fotos: Maristela Colucci